14.09.2020

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Entrevista: prevenção e diagnóstico de doenças cardíacas em animais — Setembro Vermelho

Já falamos aqui no blog sobre o Setembro Vermelho e o que é necessário saber sobre doenças cardiovasculares em seres humanos. Ainda não se fala muito, porém, sobre a incidência de doenças cardíacas em animais, o que tem levado muitos veterinários e ONGs de proteção animal a abraçar a campanha. 

Atualmente, a maioria dos tutores procuram um veterinário somente quando o animal já manifesta sinais clínicos, resultando em um diagnóstico tardio que pode impactar o prognóstico. Dessa forma, o principal objetivo do Setembro Vermelho é informar a população e auxiliar para que cada vez mais tutores adotem hábitos preventivos que garantirão a saúde, longevidade e qualidade de vida de seus pets. 

Para contribuir com a iniciativa, entrevistamos as veterinárias Laura Gusman e Nathália Fontoura. Laura é formada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) com especialização em diagnóstico por imagem. Nathália é pós-graduada em Cardiologia Veterinária e doutoranda em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). 

Trazemos, assim, um material completo: falamos sobre as principais doenças cardíacas manifestas em animais, os fatores de risco para o desenvolvimento dessas doenças, quais são os sintomas e sinais de alerta, como é feito o diagnóstico e que medidas preventivas o tutor pode adotar. 

Todas as respostas foram dadas pelas veterinárias e aqui transpostas em texto corrido, para melhor entendimento. Confira: 

As principais doenças cardíacas em animais

Em cães de pequeno porte, a doença mais comum é a endocardiose, uma enfermidade que causa a degeneração da válvula mitral e faz com que o animal tenha manifestações clínicas como a insuficiência cardíaca congestiva. Já em cães de grande porte, manifesta-se mais comumente a cardiomiopatia dilatada, uma doença do músculo cardíaco caracterizada pela dilatação dos ventrículos e consequente redução do bombeamento de sangue. 

Em gatos, a enfermidade mais frequente é a cardiomiopatia hipertrófica felina, também uma doença do músculo cardíaco. Nathália chama a atenção para o fato de que a doença não apresenta sintomas: “muitos gatos são assintomáticos e só manifestam sinais clínicos quando já estão descompensados, em um quadro de insuficiência cardíaca congestiva”.

A especialista salienta, ainda, que a falta de exames de ecocardiograma e eletrocardiograma durante o check-up — aliada ao fato de que muitos tutores sequer levam seus pets para consultas periódicas ao veterinário — contribui para o diagnóstico tardio da cardiomiopatia hipertrófica em gatos. 

Ambas as profissionais mencionam também as doenças congênitas, ou seja, aquelas em que o animal já nasce com o problema. Dessa forma, é importante que o tutor tenha em mente que as doenças cardíacas não acometem somente animais de idade avançada, e que mesmo filhotes podem precisar de acompanhamento veterinário.

Fatores de risco 

Laura esclarece que os fatores de risco podem estar associados à idade, porte e raça do animal, a depender da doença. Como já mencionado no tópico anterior, algumas são mais comuns em cães de porte pequeno, outras em cães de grande porte, além das doenças hereditárias. 

Segundo Nathália, sabe-se que os principais fatores de risco estão associados à predisposição genética — raças como Maine Coon e Persa, no caso dos gatos, e Dobermann, Dachshund e Poodle, no caso dos cães, são alguns exemplos de animais predispostos ao desenvolvimento de doenças cardíacas. 

Doenças cardiovasculares 

Tanto em cães como em gatos, a hipertensão arterial primária, ou seja, a manifestação da doença sem uma causa específica, não é comum. Ela costuma manifestar-se secundariamente a outras enfermidades, principalmente doenças renais e endócrinas, como hiperadrenocorticismo e diabetes, além do hipertireoidismo, no caso de gatos senis. 

Sintomas comuns de doenças cardíacas em animais

Em cães, os principais sintomas incluem cianose (língua mais azulada ou acinzentada) e tosse seca, de aparecimento súbito e que tende a piorar com o tempo, tornando-se mais frequente. O cansaço e a intolerância ao exercício também são sinais de alerta — alguns animais ficam ofegantes mesmo sem ter praticado exercícios físicos. 

A manifestação de sintomas em gatos — como dificuldade respiratória; respiração curta e rápida ou língua roxa — normalmente já é indicativo de um quadro de urgência, tornando imprescindível o atendimento veterinário imediato. 

Diagnóstico 

O diagnóstico se dá pela avaliação veterinária — preferencialmente por um profissional especializado em cardiologia veterinária — através da aplicação de alguns exames. 

Exames de rotina para avaliação cardiológica são feitos pelo ecodopplercardiograma e pelo eletrocardiograma. Entretanto, o eletrocardiograma apresenta um período de gravação muito curto — normalmente entre 5 e 10 minutos de duração, para monitoramento do ritmo cardíaco. 

Devido a isso, animais que apresentem arritmia cardíaca devem passar pelo exame de Holter, que possibilita o monitoramento eletrocardiográfico por um período muito mais longo, de até 24 horas.  

A medição da pressão arterial nos animais é também importante, já que pode estar elevada e representar um risco para o desenvolvimento de diversas doenças, ainda que o animal não apresente qualquer sintoma. 

Prevenção de doenças cardíacas em animais

Ao contrário de como acontece com o ser humano, a obesidade não está fortemente relacionada ao aparecimento de doenças cardiovasculares em animais — a predisposição genética mantém-se como fator predominante. 

Assim sendo, a avaliação periódica com um veterinário é a principal medida preventiva, principalmente para animais mais velhos e gatos em geral (por serem assintomáticos). Para cães e gatos, recomenda-se um  check-up anual a partir dos sete anos de idade. 

Para animais que apresentam fatores de risco, a avaliação deve ser feita a intervalos mais curtos: aproximadamente seis meses. Aqueles que já têm doença diagnosticada podem necessitar acompanhamento a intervalos ainda menores, de aproximadamente quatro meses, a depender da gravidade da doença. 

O ideal é que, ao adquirir um animal, o adotante procure verificar seu histórico familiar para incidência de doenças cardíacas. Nos casos em que é possível obter essa informação, o conhecimento prévio pode orientar o correto acompanhamento do animal pelo veterinário.

Avaliações pré-cirúrgicas

Segundo Nathália, drogas farmacológicas utilizadas em procedimentos anestésicos podem causar alterações no sistema cardiovascular. Dessa forma, um exame prévio deve ser feito para que o anestesista tenha total conhecimento sobre o funcionamento do coração do animal. Para animais que apresentem alterações, pode ser necessário um tratamento que estabilize o quadro antes da aplicação da anestesia.

Os desafios da medicina veterinária 

Para Nathália, a correta prevenção tem sido o maior desafio enfrentado no exercício de sua profissão. Embora os médicos venham trabalhando continuamente para possibilitar o diagnóstico precoce e uma maior sobrevida aos animais, muitos tutores não autorizam os exames necessários ao acompanhamento devido à não incidência de sintomas que, aos olhos do tutor, seriam os únicos indicativos de que algo está errado.

Aliado a isso, Laura salienta a subvalorização do profissional e a falta de recursos: muitos tutores não aceitam pagar pelo valor do serviço e dos exames, o que impossibilita o correto procedimento, fundamental a cada caso. Ela completa: “outra coisa que acho complicada é que nem toda cidade tem a estrutura para resolver todos os casos. Nem toda cidade tem tomografia, ressonância, internação com hemogasometria, bomba de infusão, hemodiálise. Então às vezes, a falta recurso do tutor, e às vezes falta  de estrutura na cidade fazem com que o tratamento daquele paciente não seja possível, pelo menos não da melhor forma. E como no fim a gente se apega, quer ver os bichinhos bem, isso pode ser muito difícil”. 

Quer começar a fazer o acompanhamento periódico de seu pet? Entre em contato com nossas entrevistadas:

Laura Gusman – Ultrassonografia veterinária especializada:

Telefone: (67) 99257-8191

Instagram: @laura.ultravet

Nathália Fontoura – Atendimento especializado em cardiologia veterinária:

Telefone: (67) 99984-5012

Instagram: @cardionathaliafontoura

por Agência Flatbox